Segunda-feira de manhã, Luísa, como em todas as manhãs de trabalho dirigiu-se para a fábrica, desta vez fê-lo de carro. Deixou as crianças na escola e fez-se à estrada. Chegou muito mais cedo do que era habitual. Parou no café do costume para tomar o pequeno-almoço, pagou, respirou fundo e desceu a rua que dava acesso à fábrica. Sabia que todos iriam reparar no seu novo look, mesmo com a bata, as botas novas, o corte de cabelo e a sua nova cor não iam passar despercebidos aos comentários.
Sentiu os olhares que a percorriam de cima abaixo, alguns de inveja, outros de alegria, até um ou outro de desejo. Luísa sabia ser uma mulher muito bonita, e sabia que pela primeira vez em vários anos estava a mostra-lo. Alguns colegas mais antigos reconheciam-lhe o andar, a pose delicada, mas aquele lugar não era abrigo permanente dos trabalhadores, a chefia pensava apenas nos lucros, e apesar da crise económica instalada no país, as pessoas aguentavam-se por lá pouco tempo.
Luísa dirigiu-se ao vestiário. Tirou o casaco e vestiu a bata. O turno das 8 horas já tinha iniciado e ainda não estava ninguém em intervalo, por isso pôde estar sozinha. Afastou qualquer pensamento da sua mente, alheou-se dos olhares que sentira e dirigiu-se ao seu posto de trabalho.
Assim que chegou, viu um post-it colado na sua máquina que dizia: “Luísa, por favor venha ao escritório.” – Ok, estourou a bomba! – Pensou num suspiro. E lá foi.
A porta estava aberta, mesmo assim, bateu antes de entrar.
- Entre Luísa, chegou cedo hoje.
- Sim, vim de carro.
- A sério, para sair com o namoradinho depois do trabalho?
- Como?
Luísa estava em estado de choque, nunca pensou ouvir tal coisa da boca do seu chefe, tem ver tal olhar de ciúme no rosto da Susana, a filha do patrão.
- Sim Luísa, nós sabemos de tudo, ou pensou que ninguém viu as cenas tristes de sexta-feira?
- Mas…
- Não se defenda, uma mulher casada a desviar um rapazinho do seu caminho, devia ter vergonha.
Então fez-se luz, alguém vira o que se passara, Susana era conhecida na fábrica por gostar de rapazes mais novos e, segundo se dizia era raro o funcionário que lhe escapava.
- Eu não vou defender-me, de facto, vou despedir-me…
- Mas o que se passa, foi assolada pela falsa moral, o seu marido ganha assim tão bem que se possa dar a esse luxo? – Disse agora Susana vermelha de raiva.
- Não Susana, não sou eu quem tem falsa moral aqui. O meu marido ganhava muito bem, de facto, antes de falecer, e sim, posso dar-me a esse luxo…
- Mas quando é que o seu marido faleceu? – Perguntou Luís.
- Nas minhas férias antes de ser internada com gravidez de risco. Está aqui o meu cartão do cidadão, podem confirmar o Estado Civil.
Susana e Luís, o supervisor de serviço estavam sem saber o que dizer, e Luísa continuou:
- Quando eu vim trabalhar para esta empresa, ainda dirigida pelo teu pai, Susana, havia aqui um ambiente familiar. Como sabes, eu tenho um curso superior, inicialmente vim trabalhar para o escritório, mas houve falhas de pessoal e aumento de produção e todos tivemos de ajudar, na altura éramos colegas e trabalhávamos lado a lado. Quando o teu pai teve o AVC e entregou a fábrica as coisas mudaram por aqui, logo a seguir fui internada e quando voltei tinha a máquina dos pratos à minha espera. Nada me foi perguntado, e por isso, eu nada disse.
- Luísa, nós não sabíamos, mas mesmo assim ele é um miúdo…
- É Luís, por isso que me beijou e eu lhe perdoei. Ele não teve qualquer culpa de ver em mim o que eu tenho andado a esconder. Não o prejudiquem, está aqui o meu cartão, eu não trabalho mais aqui.
Luísa saiu sorridente, sentia que tinha deitado fora um peso que trazia aos ombros e não a deixava levantar a cabeça. Nunca tinha mentido, mas tinha ocultado a sua viuvez e com isso tinha-se ocultado a si própria.
Entrou nos vestiários, do seu cacifo tirou o casaco, olhou para os poucos pertences que lá estavam, nada que lhe fizesse, deixou a chave na porta aberta e saiu. Enquanto percorria o corredor já se ouviam toda a espécie de comentários, ignorou-os, até que de repente foi parada à porta.
- Que se passa? Onde vais? Quase nem te reconhecia! Quem és tu afinal?
- Calma, João, calma…
- O que aconteceu?
- Despedi-me só isso, e se não vais para a tua máquina vai-se partir a louça toda e vais ser despedido também.
- Quero lá saber, só quero saber de ti, não podes ir embora assim…
- Então olha eu a ir! – Luísa sentiu-se muito mal com aquelas palavras, mas não queria prejudicar João.
Subiu a rampa de rosto levantado, alguns colegas que chegavam olhavam-na, mas não parou para falar com ninguém. Abriu o carro e do lado oposto entrou João de forma repentina assustando-a.
- Seguiste-me? Sai já!
- Eu não vou a lado nenhum se ter respostas…
- Vais ser despedido!
- Não me importo, vá, arranca, vamos embora daqui…
Luísa ouvia a sua consciência a dizer-lhe que devia por João fora do carro, mas o seu desejo falou mais alto. Deu à chave e arrancou e grande velocidade. João colado ao assento nem sabia o que pensar, olhava-a apenas, desejava-a ainda mais, estava confuso.
Pararam em frente à praia, estava um sol primaveril que convidava a um passeio, Luísa olho para João, sorriu e disse:
- Anda daí, parece que viste um fantasma, vamos apanhar sol, eu respondo-te a tudo o que queres saber.
- Ok, podemos tomar um café primeiro? Não sabia que tinhas carro, nem que conduzias assim…
- Assim como?
- Tão depressa…
- Isto não é nada, estou enferrujada, vamos tomar café, temos tempo…
Sentaram-se numa esplanada. Luísa contou a João tudo o que acontecera, ele ouviu sem questionar, estava confuso, mas os seus sentimentos não tinham mudado, olhava-a como quem olha uma obra de arte exposta num museu, Luísa ignorou-lhe o olhar, sabia que após terminar tudo poderia acontecer, mas queria que João estivesse consciente de quem ela era e daquilo porque passara.
Amigas/os: Este é o ultimo capítulo publicado on-line, a partir daqui posso satisfazer a vossa curiosidade, enviando os textos por mail, mas não quero correr o risco de plágio. Quando estiver pronto ofereço-vos cópias. Se for publicado espero que comprem... :p
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