domingo, 6 de fevereiro de 2011

Capítulo X – Segunda-feira


Segunda-feira de manhã, Luísa, como em todas as manhãs de trabalho dirigiu-se para a fábrica, desta vez fê-lo de carro. Deixou as crianças na escola e fez-se à estrada. Chegou muito mais cedo do que era habitual. Parou no café do costume para tomar o pequeno-almoço, pagou, respirou fundo e desceu a rua que dava acesso à fábrica. Sabia que todos iriam reparar no seu novo look, mesmo com a bata, as botas novas, o corte de cabelo e a sua nova cor não iam passar despercebidos aos comentários.

Sentiu os olhares que a percorriam de cima abaixo, alguns de inveja, outros de alegria, até um ou outro de desejo. Luísa sabia ser uma mulher muito bonita, e sabia que pela primeira vez em vários anos estava a mostra-lo. Alguns colegas mais antigos reconheciam-lhe o andar, a pose delicada, mas aquele lugar não era abrigo permanente dos trabalhadores, a chefia pensava apenas nos lucros, e apesar da crise económica instalada no país, as pessoas aguentavam-se por lá pouco tempo.

Luísa dirigiu-se ao vestiário. Tirou o casaco e vestiu a bata. O turno das 8 horas já tinha iniciado e ainda não estava ninguém em intervalo, por isso pôde estar sozinha. Afastou qualquer pensamento da sua mente, alheou-se dos olhares que sentira e dirigiu-se ao seu posto de trabalho.

Assim que chegou, viu um post-it colado na sua máquina que dizia: “Luísa, por favor venha ao escritório.” – Ok, estourou a bomba! – Pensou num suspiro. E lá foi.

A porta estava aberta, mesmo assim, bateu antes de entrar. 
- Entre Luísa, chegou cedo hoje.
- Sim, vim de carro.
- A sério, para sair com o namoradinho depois do trabalho?
- Como? 

Luísa estava em estado de choque, nunca pensou ouvir tal coisa da boca do seu chefe, tem ver tal olhar de ciúme no rosto da Susana, a filha do patrão.

- Sim Luísa, nós sabemos de tudo, ou pensou que ninguém viu as cenas tristes de sexta-feira?
- Mas…
- Não se defenda, uma mulher casada a desviar um rapazinho do seu caminho, devia ter vergonha.

Então fez-se luz, alguém vira o que se passara, Susana era conhecida na fábrica por gostar de rapazes mais novos e, segundo se dizia era raro o funcionário que lhe escapava.

- Eu não vou defender-me, de facto, vou despedir-me…
- Mas o que se passa, foi assolada pela falsa moral, o seu marido ganha assim tão bem que se possa dar a esse luxo? – Disse agora Susana vermelha de raiva.
- Não Susana, não sou eu quem tem falsa moral aqui. O meu marido ganhava muito bem, de facto, antes de falecer, e sim, posso dar-me a esse luxo…
- Mas quando é que o seu marido faleceu? – Perguntou Luís.
- Nas minhas férias antes de ser internada com gravidez de risco. Está aqui o meu cartão do cidadão, podem confirmar o Estado Civil.

Susana e Luís, o supervisor de serviço estavam sem saber o que dizer, e Luísa continuou:
- Quando eu vim trabalhar para esta empresa, ainda dirigida pelo teu pai, Susana, havia aqui um ambiente familiar. Como sabes, eu tenho um curso superior, inicialmente vim trabalhar para o escritório, mas houve falhas de pessoal e aumento de produção e todos tivemos de ajudar, na altura éramos colegas e trabalhávamos lado a lado. Quando o teu pai teve o AVC e entregou a fábrica as coisas mudaram por aqui, logo a seguir fui internada e quando voltei tinha a máquina dos pratos à minha espera. Nada me foi perguntado, e por isso, eu nada disse.
- Luísa, nós não sabíamos, mas mesmo assim ele é um miúdo…
- É Luís, por isso que me beijou e eu lhe perdoei. Ele não teve qualquer culpa de ver em mim o que eu tenho andado a esconder. Não o prejudiquem, está aqui o meu cartão, eu não trabalho mais aqui.

Luísa saiu sorridente, sentia que tinha deitado fora um peso que trazia aos ombros e não a deixava levantar a cabeça. Nunca tinha mentido, mas tinha ocultado a sua viuvez e com isso tinha-se ocultado a si própria.

Entrou nos vestiários, do seu cacifo tirou o casaco, olhou para os poucos pertences que lá estavam, nada que lhe fizesse, deixou a chave na porta aberta e saiu. Enquanto percorria o corredor já se ouviam toda a espécie de comentários, ignorou-os, até que de repente foi parada à porta.

- Que se passa? Onde vais? Quase nem te reconhecia! Quem és tu afinal?
- Calma, João, calma…
- O que aconteceu?
- Despedi-me só isso, e se não vais para a tua máquina vai-se partir a louça toda e vais ser despedido também.
- Quero lá saber, só quero saber de ti, não podes ir embora assim…
- Então olha eu a ir! – Luísa sentiu-se muito mal com aquelas palavras, mas não queria prejudicar João.

Subiu a rampa de rosto levantado, alguns colegas que chegavam olhavam-na, mas não parou para falar com ninguém. Abriu o carro e do lado oposto entrou João de forma repentina assustando-a.
- Seguiste-me? Sai já!
- Eu não vou a lado nenhum se ter respostas…
- Vais ser despedido!
- Não me importo, vá, arranca, vamos embora daqui…

Luísa ouvia a sua consciência a dizer-lhe que devia por João fora do carro, mas o seu desejo falou mais alto. Deu à chave e arrancou e grande velocidade. João colado ao assento nem sabia o que pensar, olhava-a apenas, desejava-a ainda mais, estava confuso.

Pararam em frente à praia, estava um sol primaveril que convidava a um passeio, Luísa olho para João, sorriu e disse:
- Anda daí, parece que viste um fantasma, vamos apanhar sol, eu respondo-te a tudo o que queres saber.
- Ok, podemos tomar um café primeiro? Não sabia que tinhas carro, nem que conduzias assim…
- Assim como?
- Tão depressa…
- Isto não é nada, estou enferrujada, vamos tomar café, temos tempo…

Sentaram-se numa esplanada. Luísa contou a João tudo o que acontecera, ele ouviu sem questionar, estava confuso, mas os seus sentimentos não tinham mudado, olhava-a como quem olha uma obra de arte exposta num museu, Luísa ignorou-lhe o olhar, sabia que após terminar tudo poderia acontecer, mas queria que João estivesse consciente de quem ela era e daquilo porque passara.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Capítulo IX - Um domingo em família

Luísa acordou e ficou a contemplar as crianças, dormiam como anjos, cada um para o seu lado. Pela janela entravam uns tímidos raios de sol e o Perdido aos pés da cama esticava-se para os apanhar. Aquele cenário trazia-lhe paz e alguma confiança. Escorregou da cama devagarinho e foi para a cozinha fazer o pequeno almoço.

Começou a organizar o dia, estava bom tempo, frio, mas seco. As crianças adoravam correr e andar de bicicleta, estava um dia excelente para ir ao Parque da Cidade e até podiam almoçar por lá. Pegou no telefone e ligou para casa dos pais.

- Bom dia, chama o pai...
- Está tudo bem?
- Sim, mãe, mas chama o pai, quero pedir-lhe uma coisa...
- Pega, a tua filha.
- Estou sim!
- Bom dia, pai, queria pedir-te um favor, podes emprestar-me o carro?
- O quê? - gaguejou - Aconteceu alguma coisa?
- O que é que podia acontecer num dia tão bonito? Quero levar os miúdos ao parque. Como tens as cadeiras atrás e as bicicletas na mala... - Disse Luísa antes de perder a coragem. - Deixo-te as chaves do meu para se quiseres sair.
- E que vai conduzir?
- Eu, quem é que havia de ser?
- Está bem, passa cá. Almoças?
- Não, como com os miúdos no parque... Até já!

Pousou o telefone, mas este começou a tocar, era Sónia, a Psicóloga que se tornara em amiga, estava com um tom repreensivo.
- Faltaste à consulta ontem.
- Esqueci-me, fui às compras com a minha irmã...
- Ao menos compraste alguma coisa para ti?
- Uma mala cheia, a Nazaré vestiu-me, calçou-me e até fomos ao cabeleireiro.
- Pára de me gozar, o que vais fazer hoje?
- Vou levar as crianças ao parque, acabei de ligar ao meu pai a pedir-lhe o carro emprestado, queres ir lá ter?
- Luísa, eu sou tua médica e tua amiga, tu não compras roupa, não vais ao cabeleireiro e não conduzes...
- Mas já fui assim, e quero voltar a ser eu... Aconteceu algo que fez mudar tudo, como quando a Maria Antónia nasceu que parece que acordei, ainda não tinha acordado tudo, mas de repente... É complicado, devo sofrer de um estado de loucura qualquer, mas quero viver porque voltei a sentir-me viva...
- Ok, convenceste-me, a que parque vais?
- Sónia, a sério, vem almoçar connosco, as crianças vão correr e andar de bicicleta e conto-te tudo...
- Vou, tenho de ver para crer. Onde e a que horas?
- Na esplanada do parque da cidade às 12h.
- Combinado!

As crianças acordaram entretanto, Luísa serviu o pequeno almoço, leite com panquecas e doce. Contou-lhe o que iam fazer e ajudou-as a vestir. Foram buscar o carro, Luísa nem ponderou ter medo, ligou o carro e fez-se à estrada.

Quando Sónia chegou quase não reconheceu Luísa, ou melhor, reconheceu-a porque era uma cópia da mulher acidentada que vira nas urgências, uma mulher muito bonita, de traços simples, bem vestida e penteada, estava ansiosa, como profissional e como amiga, por saber o que acontecera.

- Tu estás...
- Estou eu...
- Estás linda, continuas de olhar triste, mas agora vejo nele esperança, estás segura de ti...
- Vá senta-te, já te disse que estou eu, pede o que queres comer que eu conto-te o que se passou.

E assim passaram a tarde, o sol era agradável e quente, as crianças estavam felizes, Sónia estupefacta com a mudança repentina de Luísa, mas contente pela amiga, profissionalmente tinha dúvidas, mas não estava no consultório e decidiu deixar as dúvidas de lado e apoiar a sua amiga renascida.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Capítulo VIII - Sábado à noite

No fim do jantar Luísa vestiu os casacos a Carlos e Maria Antónia, as crianças estavam contentes por saber que iam dormir a casa da mãe. Sim, à casa da mãe, pois a casa deles passara a ser a casa da avó. Aquela mudança repentina da mãe não os assustava, elas já tinham visto fotografias de quando a mãe era mais nova e parecia que de um momento para o outro tinha saído do álbum da avó e estava ali com eles. Reconheciam-lhe a voz, apesar das poucas palavras que diziam, reconheciam-lhe o toque doce, reconheciam-na como a mãe que os amava.

Quando chegaram o Perdido saudou-mos, Carlos gostava mais de cães, mas Maria Antónia correu a pegar-lhe, simplesmente adorava o que daquele pelo e o som do ronronar.

Viram um pouco de televisão, Luísa ficou admirada com a quantidade de canais, as contas eram pagas por débito directo e apesar de raramente ligar a televisão ou usar a internet nunca tinha cancelado o pacote que António subscrevera. De facto, apesar da sua vida humilde, Luísa tinha condições para viver uma vida despreocupada, o seu ordenado não era muito elevado, mas dele pouco gastava e tinha uma boa pensão do marido, António tratara de fazer um bom seguro, o qual assegurava que Luísa e os filhos teriam uma vida estável caso algo lhe acontecesse.

- Vá meninos, a casa de banho já está quente e a tia Nazaré já está quase a dormir no sofá.
- Isso querias tu, vais dormir com as crianças, eu prefiro outras companhias. - Nazaré piscou o olho à irmã e pegou na carteira
- Vá meninos, beijos na tua Nazaré e banho!
- Venham cá meus lindos! - Nazaré abraçou e beijou as crianças que sem seguida correram para a casa de banho.
- E eu também tenho direito a beijos e abraços? - Luísa falou meio a sério, meio a brincar, na realidade começava a sentir falta de ser tocada, mesmo pela irmã.
- Claro, maninha, para ti há sempre beijos e abraços...
- Vai lá matar a ressaca, tens nicotina escrito na testa. Vê se dormes, não faças nada que eu não fizesse!
- Estás com umas piadas... Amanhã se acordar ligo-te. Fica bem!

Os miúdos já estavam a chapinhar na banheira, Luísa olhava-os apercebendo-se de como tinham crescido e como se tinham tornado independentes. Estava contente com a presença deles, mas ao mesmo tempo entristecia-se ao perceber o que tinha perdido e tudo a que não tinha assistido. Assustava-se com a ideia de agora que assumira voltar a ser o que fora pudesse querer recuperar tudo de uma só vez, receava cometer erros, pensava em João, mais do que gostaria, e em como aquele beijo a tinha despertado para a vida. 

Com muitos risos e agitação ajudou as crianças a vestirem os pijamas e foram para a cama. O gato segui-os, enroscando-se ao fundo da cama. Luísa, Carlos e Maria Antónia adormeceram entre mimos e risos, os três dormiram como bebés.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Capítulo VII - Sopram ventos de mudança

Nazaré entrou a porta de casa dos pais com o seu ar confiante de sempre, Luísa, mais tímida seguiu-a. Sabia que a mãe iria comentar o seu novo visual, estava assustada, sabia que as crianças iam dizer "a mamã está bonita", mas sentia também que o vento forte que soprava lá fora era o início de uma tempestade que iria durar muito tempo.

- Finalmente, Nazaré, pensei que te tinhas esquecido onde fica a casa dos teus pais.
- Boa noite mãe, tens sempre algo agradável a dizer. - Piscou o olho ao pai e abraçou-o - Onde estão os meus sobrinhos lindos?
- Devem estar a brincar no quarto, - disse Luísa timidamente, - vai espreita-los.
- Meu Deus rapariga, és mesmo tu? - O pai de Luísa sorria excitado ao ver a filha tão bonita. - Voltaste a ter 30 anos e aparentar 25, estás fantástica!
- Não deites foguetes, Manuel, amanhã ela volta a esconder-se atrás das roupas velhas...
- A Nazaré tem razão, mãe, tens sempre algo agradável a dizer...  Vou levar as prendas aos meus bebés.

Maria Antónia e Carlos saltavam na cama com a tia Nazaré. Pareciam 3 crianças, não fosse o 1,75 metros de Nazaré e estariam 3 crianças em cima da cama...

- Vá lá, ao menos tiraste os sapatos...
- Mamã, anda saltar! - disse Maria Antónia estendendo a mão à mãe.
- A mamã não salta, - disse Carlos - a tia é que salta.

Luísa deu a mão à filha e sentou-se na beirinha da cama, mas Maria Antónia não saltou mais, começou a observar a mãe levando o dedinho indicador à boca.

- Estás diferente mamã, pareces uma bonequinha...
- Obrigada filha, mas tu é que és uma bonequinha, a mamã só cortou o cabelo e comprou roupas novas.
- Também quero!
- E a mamã trouxe montes de prendas, para ti e para o mano...
- Sim! - Gritou Maria Antónia e voltou a saltar.
- E sabem que mais, depois do jantar vamos para casa, hoje vamos dormir os três e amanhã vamos passear...

As crianças ficaram loucas de alegria, abriram os presentes como se fosse Natal, havia roupas, brinquedos, guloseimas...

- Vá meninos, toca a lavar as mãos e vamos jantar, a tia Nazará hoje janta connosco.
- E tu também jantas, mamã? - Perguntou Carlos.
- Janto filho, a partir de hoje muita coisa vai mudar!

Desceram as escadas e sentaram-se à mesa, era massa com frango, um dos pratos preferidos das crianças. Jantaram alegremente e no fim Luísa explicou aos pais que queria levar os filhos a dormir a casa e que pretendia voltar a ser o que havia sido, mas precisava da ajuda deles. Nazaré não disse nada, limitou-se a olhar fixamente a mãe com aquele olhar matador que sabia fazer, apenas para ter a certeza de que ela não ia interromper a irmã.

domingo, 28 de novembro de 2010

Capítulo VI - As compras

A campainha tocou, Nazaré chegou cedo, como prometido, dava para perceber pelos restos de maquilhagem que ainda não tinha ido à cama, e pelo seu ar enfadado que a noite não tinha corrido como planeado.

- Bom dia mana, queres café?
- Por favor! Posso fumar?
- Podes, mas sabes que isso um dia ainda vai matar-te...
- É como tu dizes maninha linda: "o que não nos mata torna-nos mais fortes!"
- A noite não te correu bem?
- Começou bem, mas acabou mal, homens...
- Devias escolher um, casar, ter filhos.
- Sim, sim, ser uma menina bem comportada, o orgulho do papá e da mamã... Já vi esse filem, a protagonista acaba só e infeliz.
- Eu não estou só!
- Não estava a falar de ti, estava a falar no geral. Tu ainda vais a tempo de acordar para a vida.
- Toma o café, dá-me um cigarro.
- É porque dou, se estás a pensar em meter-te em sarilhos eu não quero ser responsável, só te quero mudar esse look de viúva para a mulher linda que és.
- Tenho medo Nazaré!
- Eu sei. Um passo de cada vez, deixa-me aliviar a ressaca e já vamos tratar do teu guarda-roupa... e do cabelo, meu Deus, já não vê umas tesouras há séculos!

Saíram por volta das 9 horas, para aproveitar o tempo, Nazaré decidiu começar pelo corte de cabelo. Luísa tinha um cabelo castanho, fino e encaracolado, passava do meio das costas, começava já a ter muitos cabelos brancos e estava a necessitar de um corte urgente. Nazaré tinha pensado em madeixas, mas conhecia bem a irmã e pediu à cabeleireira um corte prático, pelos ombros, incerto para acentuar os caracóis e uma cor com reflexos acaju escuro. Na manicura optou por uma tinta de gel, muito mais durável, num tom pastel claro. Em uma hora Luísa já parecia outra pessoa.

- E então, que tal te sentes?
- Estranha!
- Pois, começamos pelo fim, mas os shoppings só abrem às 10 horas e assim aproveitamos uma hora...
- E pintaste-me o cabelo, vais obrigar-me a fazer manutenção...
- É tom sobre tom maninha, não deixa raiz, dura cerca de um mês, depois fazes o que te apetecer.
- Ok, está bonito, era a cor que eu costumava usar.
- Eu sei disso, como te disse vou recuperar-te!

Seguiram-se horas de compras, jeans, t-shirts, camisolas, casacos, botas, sapatos, carteira, até lingerie. Luísa tentou fugir ao preto, mas a paleta não era muito variada, andava tudo à volta dos cinzentos, roxos, castanhos e azuis.

- Nazaré, já chega, são três da tarde, estou cansada.
- E eu esganadinha de fome. Começo a entender como é que manténs esse corpinho, não comes nada...
- Então, vamos comer.
- Francesinha?
- Seja, meia para mim, sem molho e sem batatas...
- Tu dou cabo de mim. Vamos lá!

A mala do carro já começava a ficar cheia, foram comer a francesinha no centro comercial onde se encontravam para poupar tempo.

- Parece que já tenho tudo o que necessito, queres ir descansar depois do almoço?
- Eu durmo quando morrer, vamos ao supermercado.
- Mais compras?  
- Claro, Luísa, não tens nada de comer em casa...
- Prometo que te deixo em casa ao anoitecer.
- E os meninos? Ainda não os vi hoje.
- Vês logo. Compramos-lhes uns brinquedos.
- Tens de ir ver os pais, eles repararam que não entraste, sabes que a idade não perdoa...
- Vamos fazer assim: eu prometo-te que hoje vou jantar a casa dos pais e tu comes o que tens no prato e deixas o resto da tarde por minha conta.
- Eu pensei que já estava por tua conta desde que saí de casa...
- E estás, se aceitares continuar eu faço o sacrifício de aturar os velhos e assim vejo os meus sobrinhos lindos.
- Há alguma coisa que tu queiras e que não consigas ter?
- Há várias, mas hoje é o teu dia, falamos nisso amanhã ou depois...

E assim Luísa comeu numa refeição mais do que era habitual num dia inteiro e prosseguiram com as compras, como prometido ao anoitecer Nazaré estava a estacionar o carro à porta de Luísa. Levaram os sacos para cima, pegaram nas prendas das crianças e dirigiram-se a casa dos pais.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Capítulo V - Mais uma noite em claro

Luísa dirigiu-se a casa em passo apressado, entrou no prédio, fechou a porta e subiu ao 3º andar. Assim que abriu a porta o Perdido espreguiçou-se daquela maneira que só os gatos sabem fazer e veio ter com ela. Pegou-lhe ao colo, pousou a carteira e o casaco, agarrou um pacote de bolachas e foi sentar-se no sofá. À sua frente tinha um grande LCD o qual tinha por hábito transformar em muldura fotográfica a partir da box. Pegou no netbook e debicou uma bolacha.

Todos os aparelhos de alta tecnologia que tinha em casa, alguns já ultrapassados, outros ainda actuais, haviam sido comprados por António, Luísa não lhes ligava nenhuma, com excepção do netbook que apesar de se ter fartado de gozar aquando da compra por ser pequeno e ter formato de torradeira, era agora o seu companheiro de todas as noites.

Luísa, como muitas mulheres sozinhas, vivia uma outra vida no mundo virtual, estava envolvida em redes sociais, causas solidarias e tudo o que lhe servisse para ocupar a mente. Dormia muito pouco e a noite era sempre muito longa.

Pensou em fazer uma listado que precisava de comprar, olhou-se da cabeça aos pés e pensou: - Preciso de tudo, a Nazaré vai consolar-se com tantas compras.

Puxou a manta e recostou-se. Abriu o netbook e o Perdido esticou-se nas suas pernas. Comeu mais uma bolacha e entrou no seu mundo paralelo.

Começou a ver o dia a amanhecer, levantou-se e foi fazer café. Nazaré chegaria cedo, mesmo que sem dormir, não perderia um minuto de um dia de compras.

Capítulo IV - O regresso a casa

Luísa entrou na casa dos pais, era uma vivenda antiga de dois pisos, tinha sido restaurada após o casamento de Luísa e o seu antigo quarto tinha passado a ser o quanto das crianças. Carlos e Maria Antónia brincavam, dormiam e cresciam naquele quarto de 20 metros. Tinham um beliche num canto e um enorme tapete de diversões.

- Os miúdos? - perguntou ao entrar na sala.
- Já estão no quarto, tomaram banho e não tarda nada vão dormir, chegaste tão tarde... - Disse a mãe com um ar apreensivo.
- Perdi o comboio, a Nazaré foi buscar-me e apanhamos trânsito.
- E onde é que ela está, já nem entra para ver o pais?
- Não sejas assim, ela tinha um compromisso e atrasou-se por minha causa, se entrasse nunca mais conseguia chegar dentro do aceitável...
- A tua irmã tem sempre desculpa, está sempre atrasada. - Benedita começara a conversa do costume. Apesar de fazer de tudo para ajudar as filhas, e de nunca lhes ter faltado com nada, não entendia a sua emancipação e a permanente necessidade de liberdade de Nazaré.
- Ela tem uma carreira de sucesso, é uma jornalista muito conceituada, devias ter orgulho nela, não critica-la...
- Eu não estou a criticar, - disse a mãe amargamente, - apenas estou a dizer que ela podia ter entrado...
- Está bem. Vou dar um beijo de boa noite os miúdos, podem ficar cá a dormir?
- E não ficam sempre?
- Não. Não ficam! Ficam muitas vezes, é um facto, mas sempre que posso passo tempo com eles... - Luísa de facto, sentia que estava ausente a maior parte do tempo, até sentia alguma culpa, mas por vezes tinha dificuldade em ligar-se à terra e sabia que as crianças estavam bem com os avós.

Luísa entrou devagarinho no quarto, as crianças saltavam alegremente, a primeira a ver foi Maria Antónia. - Mamã! - E ambas as crianças correram para os braços da mãe.

Era nestes momentos que o coração de Luísa tinha alguma paz, quando era atirada ao chão pelos seus filhos que corriam em direcção a ela e a abraçavam, sentia-se viva pela vida deles, e que vida, duas crianças imparáveis, constantemente a correr e saltar, junto deles só se ouviam gritos e gargalhadas.

- Vá meninos, são horas de ir para a cama, eu aconchego-vos a roupa.
- Leitinho mamã... - Disse Maria Antónia numa súplica.
- Está bem, vai lá para a cama que eu vou buscar. Também queres Carlos?
- Não mamã, traz só para a bebé. - Disse Carlos deitando a língua de fora à irmã. E claro, lá se pegaram outra vez.

Luísa foi buscar o leite, entregou a Maria Antónia e aconchegou as duas crianças na cama. Desceu e foi ter com a mãe.

- Amanhã vou com a Nazaré às compras.
- Com a Nazaré, para os meninos?
- Também, e para mim,já não compro nada há mais de 3 anos...
- Fazes bem, mas com a tua irmã a ajudar, até tenho medo!
- Não tenhas, eu ponho-lhe travão. Aproveito e vejo algumas coisas para os meninos.
- Precisas de dinheiro?
- Não, que disparate, obrigada.
- Vou descansar, até amanhã.
- E não jantas? Qualquer dia desapareces!
- Eu como qualquer coisa em casa, vai dormir, já é tarde.

Luísa pegou no casaco e saiu, o apartamento era quase ao lado, precisava de pensar no que ia comprar e digerir as emoções. À sua espera tinha o seu gato Perdido, chamara-lhe assim, porque não acreditava que alguém tivesse sido capaz de abandonar um ser tão meigo, encontrara-o a vaguear na rua e levara-o para casa na esperança de que o dono aparecesse, já o tinha há 1 ano e já não tinha intenção de o devolver.