Luísa acordou e ficou a contemplar as crianças, dormiam como anjos, cada um para o seu lado. Pela janela entravam uns tímidos raios de sol e o Perdido aos pés da cama esticava-se para os apanhar. Aquele cenário trazia-lhe paz e alguma confiança. Escorregou da cama devagarinho e foi para a cozinha fazer o pequeno almoço.
Começou a organizar o dia, estava bom tempo, frio, mas seco. As crianças adoravam correr e andar de bicicleta, estava um dia excelente para ir ao Parque da Cidade e até podiam almoçar por lá. Pegou no telefone e ligou para casa dos pais.
- Bom dia, chama o pai...
- Está tudo bem?
- Sim, mãe, mas chama o pai, quero pedir-lhe uma coisa...
- Pega, a tua filha.
- Estou sim!
- Bom dia, pai, queria pedir-te um favor, podes emprestar-me o carro?
- O quê? - gaguejou - Aconteceu alguma coisa?
- O que é que podia acontecer num dia tão bonito? Quero levar os miúdos ao parque. Como tens as cadeiras atrás e as bicicletas na mala... - Disse Luísa antes de perder a coragem. - Deixo-te as chaves do meu para se quiseres sair.
- E que vai conduzir?
- Eu, quem é que havia de ser?
- Está bem, passa cá. Almoças?
- Não, como com os miúdos no parque... Até já!
Pousou o telefone, mas este começou a tocar, era Sónia, a Psicóloga que se tornara em amiga, estava com um tom repreensivo.
- Faltaste à consulta ontem.
- Esqueci-me, fui às compras com a minha irmã...
- Ao menos compraste alguma coisa para ti?
- Uma mala cheia, a Nazaré vestiu-me, calçou-me e até fomos ao cabeleireiro.
- Pára de me gozar, o que vais fazer hoje?
- Vou levar as crianças ao parque, acabei de ligar ao meu pai a pedir-lhe o carro emprestado, queres ir lá ter?
- Luísa, eu sou tua médica e tua amiga, tu não compras roupa, não vais ao cabeleireiro e não conduzes...
- Mas já fui assim, e quero voltar a ser eu... Aconteceu algo que fez mudar tudo, como quando a Maria Antónia nasceu que parece que acordei, ainda não tinha acordado tudo, mas de repente... É complicado, devo sofrer de um estado de loucura qualquer, mas quero viver porque voltei a sentir-me viva...
- Ok, convenceste-me, a que parque vais?
- Sónia, a sério, vem almoçar connosco, as crianças vão correr e andar de bicicleta e conto-te tudo...
- Vou, tenho de ver para crer. Onde e a que horas?
- Na esplanada do parque da cidade às 12h.
- Combinado!
As crianças acordaram entretanto, Luísa serviu o pequeno almoço, leite com panquecas e doce. Contou-lhe o que iam fazer e ajudou-as a vestir. Foram buscar o carro, Luísa nem ponderou ter medo, ligou o carro e fez-se à estrada.
Quando Sónia chegou quase não reconheceu Luísa, ou melhor, reconheceu-a porque era uma cópia da mulher acidentada que vira nas urgências, uma mulher muito bonita, de traços simples, bem vestida e penteada, estava ansiosa, como profissional e como amiga, por saber o que acontecera.
- Tu estás...
- Estou eu...
- Estás linda, continuas de olhar triste, mas agora vejo nele esperança, estás segura de ti...
- Vá senta-te, já te disse que estou eu, pede o que queres comer que eu conto-te o que se passou.
E assim passaram a tarde, o sol era agradável e quente, as crianças estavam felizes, Sónia estupefacta com a mudança repentina de Luísa, mas contente pela amiga, profissionalmente tinha dúvidas, mas não estava no consultório e decidiu deixar as dúvidas de lado e apoiar a sua amiga renascida.
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