quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Capítulo IX - Um domingo em família

Luísa acordou e ficou a contemplar as crianças, dormiam como anjos, cada um para o seu lado. Pela janela entravam uns tímidos raios de sol e o Perdido aos pés da cama esticava-se para os apanhar. Aquele cenário trazia-lhe paz e alguma confiança. Escorregou da cama devagarinho e foi para a cozinha fazer o pequeno almoço.

Começou a organizar o dia, estava bom tempo, frio, mas seco. As crianças adoravam correr e andar de bicicleta, estava um dia excelente para ir ao Parque da Cidade e até podiam almoçar por lá. Pegou no telefone e ligou para casa dos pais.

- Bom dia, chama o pai...
- Está tudo bem?
- Sim, mãe, mas chama o pai, quero pedir-lhe uma coisa...
- Pega, a tua filha.
- Estou sim!
- Bom dia, pai, queria pedir-te um favor, podes emprestar-me o carro?
- O quê? - gaguejou - Aconteceu alguma coisa?
- O que é que podia acontecer num dia tão bonito? Quero levar os miúdos ao parque. Como tens as cadeiras atrás e as bicicletas na mala... - Disse Luísa antes de perder a coragem. - Deixo-te as chaves do meu para se quiseres sair.
- E que vai conduzir?
- Eu, quem é que havia de ser?
- Está bem, passa cá. Almoças?
- Não, como com os miúdos no parque... Até já!

Pousou o telefone, mas este começou a tocar, era Sónia, a Psicóloga que se tornara em amiga, estava com um tom repreensivo.
- Faltaste à consulta ontem.
- Esqueci-me, fui às compras com a minha irmã...
- Ao menos compraste alguma coisa para ti?
- Uma mala cheia, a Nazaré vestiu-me, calçou-me e até fomos ao cabeleireiro.
- Pára de me gozar, o que vais fazer hoje?
- Vou levar as crianças ao parque, acabei de ligar ao meu pai a pedir-lhe o carro emprestado, queres ir lá ter?
- Luísa, eu sou tua médica e tua amiga, tu não compras roupa, não vais ao cabeleireiro e não conduzes...
- Mas já fui assim, e quero voltar a ser eu... Aconteceu algo que fez mudar tudo, como quando a Maria Antónia nasceu que parece que acordei, ainda não tinha acordado tudo, mas de repente... É complicado, devo sofrer de um estado de loucura qualquer, mas quero viver porque voltei a sentir-me viva...
- Ok, convenceste-me, a que parque vais?
- Sónia, a sério, vem almoçar connosco, as crianças vão correr e andar de bicicleta e conto-te tudo...
- Vou, tenho de ver para crer. Onde e a que horas?
- Na esplanada do parque da cidade às 12h.
- Combinado!

As crianças acordaram entretanto, Luísa serviu o pequeno almoço, leite com panquecas e doce. Contou-lhe o que iam fazer e ajudou-as a vestir. Foram buscar o carro, Luísa nem ponderou ter medo, ligou o carro e fez-se à estrada.

Quando Sónia chegou quase não reconheceu Luísa, ou melhor, reconheceu-a porque era uma cópia da mulher acidentada que vira nas urgências, uma mulher muito bonita, de traços simples, bem vestida e penteada, estava ansiosa, como profissional e como amiga, por saber o que acontecera.

- Tu estás...
- Estou eu...
- Estás linda, continuas de olhar triste, mas agora vejo nele esperança, estás segura de ti...
- Vá senta-te, já te disse que estou eu, pede o que queres comer que eu conto-te o que se passou.

E assim passaram a tarde, o sol era agradável e quente, as crianças estavam felizes, Sónia estupefacta com a mudança repentina de Luísa, mas contente pela amiga, profissionalmente tinha dúvidas, mas não estava no consultório e decidiu deixar as dúvidas de lado e apoiar a sua amiga renascida.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Capítulo VIII - Sábado à noite

No fim do jantar Luísa vestiu os casacos a Carlos e Maria Antónia, as crianças estavam contentes por saber que iam dormir a casa da mãe. Sim, à casa da mãe, pois a casa deles passara a ser a casa da avó. Aquela mudança repentina da mãe não os assustava, elas já tinham visto fotografias de quando a mãe era mais nova e parecia que de um momento para o outro tinha saído do álbum da avó e estava ali com eles. Reconheciam-lhe a voz, apesar das poucas palavras que diziam, reconheciam-lhe o toque doce, reconheciam-na como a mãe que os amava.

Quando chegaram o Perdido saudou-mos, Carlos gostava mais de cães, mas Maria Antónia correu a pegar-lhe, simplesmente adorava o que daquele pelo e o som do ronronar.

Viram um pouco de televisão, Luísa ficou admirada com a quantidade de canais, as contas eram pagas por débito directo e apesar de raramente ligar a televisão ou usar a internet nunca tinha cancelado o pacote que António subscrevera. De facto, apesar da sua vida humilde, Luísa tinha condições para viver uma vida despreocupada, o seu ordenado não era muito elevado, mas dele pouco gastava e tinha uma boa pensão do marido, António tratara de fazer um bom seguro, o qual assegurava que Luísa e os filhos teriam uma vida estável caso algo lhe acontecesse.

- Vá meninos, a casa de banho já está quente e a tia Nazaré já está quase a dormir no sofá.
- Isso querias tu, vais dormir com as crianças, eu prefiro outras companhias. - Nazaré piscou o olho à irmã e pegou na carteira
- Vá meninos, beijos na tua Nazaré e banho!
- Venham cá meus lindos! - Nazaré abraçou e beijou as crianças que sem seguida correram para a casa de banho.
- E eu também tenho direito a beijos e abraços? - Luísa falou meio a sério, meio a brincar, na realidade começava a sentir falta de ser tocada, mesmo pela irmã.
- Claro, maninha, para ti há sempre beijos e abraços...
- Vai lá matar a ressaca, tens nicotina escrito na testa. Vê se dormes, não faças nada que eu não fizesse!
- Estás com umas piadas... Amanhã se acordar ligo-te. Fica bem!

Os miúdos já estavam a chapinhar na banheira, Luísa olhava-os apercebendo-se de como tinham crescido e como se tinham tornado independentes. Estava contente com a presença deles, mas ao mesmo tempo entristecia-se ao perceber o que tinha perdido e tudo a que não tinha assistido. Assustava-se com a ideia de agora que assumira voltar a ser o que fora pudesse querer recuperar tudo de uma só vez, receava cometer erros, pensava em João, mais do que gostaria, e em como aquele beijo a tinha despertado para a vida. 

Com muitos risos e agitação ajudou as crianças a vestirem os pijamas e foram para a cama. O gato segui-os, enroscando-se ao fundo da cama. Luísa, Carlos e Maria Antónia adormeceram entre mimos e risos, os três dormiram como bebés.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Capítulo VII - Sopram ventos de mudança

Nazaré entrou a porta de casa dos pais com o seu ar confiante de sempre, Luísa, mais tímida seguiu-a. Sabia que a mãe iria comentar o seu novo visual, estava assustada, sabia que as crianças iam dizer "a mamã está bonita", mas sentia também que o vento forte que soprava lá fora era o início de uma tempestade que iria durar muito tempo.

- Finalmente, Nazaré, pensei que te tinhas esquecido onde fica a casa dos teus pais.
- Boa noite mãe, tens sempre algo agradável a dizer. - Piscou o olho ao pai e abraçou-o - Onde estão os meus sobrinhos lindos?
- Devem estar a brincar no quarto, - disse Luísa timidamente, - vai espreita-los.
- Meu Deus rapariga, és mesmo tu? - O pai de Luísa sorria excitado ao ver a filha tão bonita. - Voltaste a ter 30 anos e aparentar 25, estás fantástica!
- Não deites foguetes, Manuel, amanhã ela volta a esconder-se atrás das roupas velhas...
- A Nazaré tem razão, mãe, tens sempre algo agradável a dizer...  Vou levar as prendas aos meus bebés.

Maria Antónia e Carlos saltavam na cama com a tia Nazaré. Pareciam 3 crianças, não fosse o 1,75 metros de Nazaré e estariam 3 crianças em cima da cama...

- Vá lá, ao menos tiraste os sapatos...
- Mamã, anda saltar! - disse Maria Antónia estendendo a mão à mãe.
- A mamã não salta, - disse Carlos - a tia é que salta.

Luísa deu a mão à filha e sentou-se na beirinha da cama, mas Maria Antónia não saltou mais, começou a observar a mãe levando o dedinho indicador à boca.

- Estás diferente mamã, pareces uma bonequinha...
- Obrigada filha, mas tu é que és uma bonequinha, a mamã só cortou o cabelo e comprou roupas novas.
- Também quero!
- E a mamã trouxe montes de prendas, para ti e para o mano...
- Sim! - Gritou Maria Antónia e voltou a saltar.
- E sabem que mais, depois do jantar vamos para casa, hoje vamos dormir os três e amanhã vamos passear...

As crianças ficaram loucas de alegria, abriram os presentes como se fosse Natal, havia roupas, brinquedos, guloseimas...

- Vá meninos, toca a lavar as mãos e vamos jantar, a tia Nazará hoje janta connosco.
- E tu também jantas, mamã? - Perguntou Carlos.
- Janto filho, a partir de hoje muita coisa vai mudar!

Desceram as escadas e sentaram-se à mesa, era massa com frango, um dos pratos preferidos das crianças. Jantaram alegremente e no fim Luísa explicou aos pais que queria levar os filhos a dormir a casa e que pretendia voltar a ser o que havia sido, mas precisava da ajuda deles. Nazaré não disse nada, limitou-se a olhar fixamente a mãe com aquele olhar matador que sabia fazer, apenas para ter a certeza de que ela não ia interromper a irmã.