domingo, 28 de novembro de 2010

Capítulo VI - As compras

A campainha tocou, Nazaré chegou cedo, como prometido, dava para perceber pelos restos de maquilhagem que ainda não tinha ido à cama, e pelo seu ar enfadado que a noite não tinha corrido como planeado.

- Bom dia mana, queres café?
- Por favor! Posso fumar?
- Podes, mas sabes que isso um dia ainda vai matar-te...
- É como tu dizes maninha linda: "o que não nos mata torna-nos mais fortes!"
- A noite não te correu bem?
- Começou bem, mas acabou mal, homens...
- Devias escolher um, casar, ter filhos.
- Sim, sim, ser uma menina bem comportada, o orgulho do papá e da mamã... Já vi esse filem, a protagonista acaba só e infeliz.
- Eu não estou só!
- Não estava a falar de ti, estava a falar no geral. Tu ainda vais a tempo de acordar para a vida.
- Toma o café, dá-me um cigarro.
- É porque dou, se estás a pensar em meter-te em sarilhos eu não quero ser responsável, só te quero mudar esse look de viúva para a mulher linda que és.
- Tenho medo Nazaré!
- Eu sei. Um passo de cada vez, deixa-me aliviar a ressaca e já vamos tratar do teu guarda-roupa... e do cabelo, meu Deus, já não vê umas tesouras há séculos!

Saíram por volta das 9 horas, para aproveitar o tempo, Nazaré decidiu começar pelo corte de cabelo. Luísa tinha um cabelo castanho, fino e encaracolado, passava do meio das costas, começava já a ter muitos cabelos brancos e estava a necessitar de um corte urgente. Nazaré tinha pensado em madeixas, mas conhecia bem a irmã e pediu à cabeleireira um corte prático, pelos ombros, incerto para acentuar os caracóis e uma cor com reflexos acaju escuro. Na manicura optou por uma tinta de gel, muito mais durável, num tom pastel claro. Em uma hora Luísa já parecia outra pessoa.

- E então, que tal te sentes?
- Estranha!
- Pois, começamos pelo fim, mas os shoppings só abrem às 10 horas e assim aproveitamos uma hora...
- E pintaste-me o cabelo, vais obrigar-me a fazer manutenção...
- É tom sobre tom maninha, não deixa raiz, dura cerca de um mês, depois fazes o que te apetecer.
- Ok, está bonito, era a cor que eu costumava usar.
- Eu sei disso, como te disse vou recuperar-te!

Seguiram-se horas de compras, jeans, t-shirts, camisolas, casacos, botas, sapatos, carteira, até lingerie. Luísa tentou fugir ao preto, mas a paleta não era muito variada, andava tudo à volta dos cinzentos, roxos, castanhos e azuis.

- Nazaré, já chega, são três da tarde, estou cansada.
- E eu esganadinha de fome. Começo a entender como é que manténs esse corpinho, não comes nada...
- Então, vamos comer.
- Francesinha?
- Seja, meia para mim, sem molho e sem batatas...
- Tu dou cabo de mim. Vamos lá!

A mala do carro já começava a ficar cheia, foram comer a francesinha no centro comercial onde se encontravam para poupar tempo.

- Parece que já tenho tudo o que necessito, queres ir descansar depois do almoço?
- Eu durmo quando morrer, vamos ao supermercado.
- Mais compras?  
- Claro, Luísa, não tens nada de comer em casa...
- Prometo que te deixo em casa ao anoitecer.
- E os meninos? Ainda não os vi hoje.
- Vês logo. Compramos-lhes uns brinquedos.
- Tens de ir ver os pais, eles repararam que não entraste, sabes que a idade não perdoa...
- Vamos fazer assim: eu prometo-te que hoje vou jantar a casa dos pais e tu comes o que tens no prato e deixas o resto da tarde por minha conta.
- Eu pensei que já estava por tua conta desde que saí de casa...
- E estás, se aceitares continuar eu faço o sacrifício de aturar os velhos e assim vejo os meus sobrinhos lindos.
- Há alguma coisa que tu queiras e que não consigas ter?
- Há várias, mas hoje é o teu dia, falamos nisso amanhã ou depois...

E assim Luísa comeu numa refeição mais do que era habitual num dia inteiro e prosseguiram com as compras, como prometido ao anoitecer Nazaré estava a estacionar o carro à porta de Luísa. Levaram os sacos para cima, pegaram nas prendas das crianças e dirigiram-se a casa dos pais.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Capítulo V - Mais uma noite em claro

Luísa dirigiu-se a casa em passo apressado, entrou no prédio, fechou a porta e subiu ao 3º andar. Assim que abriu a porta o Perdido espreguiçou-se daquela maneira que só os gatos sabem fazer e veio ter com ela. Pegou-lhe ao colo, pousou a carteira e o casaco, agarrou um pacote de bolachas e foi sentar-se no sofá. À sua frente tinha um grande LCD o qual tinha por hábito transformar em muldura fotográfica a partir da box. Pegou no netbook e debicou uma bolacha.

Todos os aparelhos de alta tecnologia que tinha em casa, alguns já ultrapassados, outros ainda actuais, haviam sido comprados por António, Luísa não lhes ligava nenhuma, com excepção do netbook que apesar de se ter fartado de gozar aquando da compra por ser pequeno e ter formato de torradeira, era agora o seu companheiro de todas as noites.

Luísa, como muitas mulheres sozinhas, vivia uma outra vida no mundo virtual, estava envolvida em redes sociais, causas solidarias e tudo o que lhe servisse para ocupar a mente. Dormia muito pouco e a noite era sempre muito longa.

Pensou em fazer uma listado que precisava de comprar, olhou-se da cabeça aos pés e pensou: - Preciso de tudo, a Nazaré vai consolar-se com tantas compras.

Puxou a manta e recostou-se. Abriu o netbook e o Perdido esticou-se nas suas pernas. Comeu mais uma bolacha e entrou no seu mundo paralelo.

Começou a ver o dia a amanhecer, levantou-se e foi fazer café. Nazaré chegaria cedo, mesmo que sem dormir, não perderia um minuto de um dia de compras.

Capítulo IV - O regresso a casa

Luísa entrou na casa dos pais, era uma vivenda antiga de dois pisos, tinha sido restaurada após o casamento de Luísa e o seu antigo quarto tinha passado a ser o quanto das crianças. Carlos e Maria Antónia brincavam, dormiam e cresciam naquele quarto de 20 metros. Tinham um beliche num canto e um enorme tapete de diversões.

- Os miúdos? - perguntou ao entrar na sala.
- Já estão no quarto, tomaram banho e não tarda nada vão dormir, chegaste tão tarde... - Disse a mãe com um ar apreensivo.
- Perdi o comboio, a Nazaré foi buscar-me e apanhamos trânsito.
- E onde é que ela está, já nem entra para ver o pais?
- Não sejas assim, ela tinha um compromisso e atrasou-se por minha causa, se entrasse nunca mais conseguia chegar dentro do aceitável...
- A tua irmã tem sempre desculpa, está sempre atrasada. - Benedita começara a conversa do costume. Apesar de fazer de tudo para ajudar as filhas, e de nunca lhes ter faltado com nada, não entendia a sua emancipação e a permanente necessidade de liberdade de Nazaré.
- Ela tem uma carreira de sucesso, é uma jornalista muito conceituada, devias ter orgulho nela, não critica-la...
- Eu não estou a criticar, - disse a mãe amargamente, - apenas estou a dizer que ela podia ter entrado...
- Está bem. Vou dar um beijo de boa noite os miúdos, podem ficar cá a dormir?
- E não ficam sempre?
- Não. Não ficam! Ficam muitas vezes, é um facto, mas sempre que posso passo tempo com eles... - Luísa de facto, sentia que estava ausente a maior parte do tempo, até sentia alguma culpa, mas por vezes tinha dificuldade em ligar-se à terra e sabia que as crianças estavam bem com os avós.

Luísa entrou devagarinho no quarto, as crianças saltavam alegremente, a primeira a ver foi Maria Antónia. - Mamã! - E ambas as crianças correram para os braços da mãe.

Era nestes momentos que o coração de Luísa tinha alguma paz, quando era atirada ao chão pelos seus filhos que corriam em direcção a ela e a abraçavam, sentia-se viva pela vida deles, e que vida, duas crianças imparáveis, constantemente a correr e saltar, junto deles só se ouviam gritos e gargalhadas.

- Vá meninos, são horas de ir para a cama, eu aconchego-vos a roupa.
- Leitinho mamã... - Disse Maria Antónia numa súplica.
- Está bem, vai lá para a cama que eu vou buscar. Também queres Carlos?
- Não mamã, traz só para a bebé. - Disse Carlos deitando a língua de fora à irmã. E claro, lá se pegaram outra vez.

Luísa foi buscar o leite, entregou a Maria Antónia e aconchegou as duas crianças na cama. Desceu e foi ter com a mãe.

- Amanhã vou com a Nazaré às compras.
- Com a Nazaré, para os meninos?
- Também, e para mim,já não compro nada há mais de 3 anos...
- Fazes bem, mas com a tua irmã a ajudar, até tenho medo!
- Não tenhas, eu ponho-lhe travão. Aproveito e vejo algumas coisas para os meninos.
- Precisas de dinheiro?
- Não, que disparate, obrigada.
- Vou descansar, até amanhã.
- E não jantas? Qualquer dia desapareces!
- Eu como qualquer coisa em casa, vai dormir, já é tarde.

Luísa pegou no casaco e saiu, o apartamento era quase ao lado, precisava de pensar no que ia comprar e digerir as emoções. À sua espera tinha o seu gato Perdido, chamara-lhe assim, porque não acreditava que alguém tivesse sido capaz de abandonar um ser tão meigo, encontrara-o a vaguear na rua e levara-o para casa na esperança de que o dono aparecesse, já o tinha há 1 ano e já não tinha intenção de o devolver.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Capítulo III - Pânico

A viagem de comboio correu calma como de costume, Luísa mantinha o seu carro, mas desde o acidente que optara por não conduzir, o seu carro era usado esporadicamente para levar as crianças ao pediatra, ou ao jardim escola quando estava a chover, também quando precisava de ir às compras, mas sempre dentro da cidade, muito atenta e apenas por necessidade. 

Luísa não voltou a viajar, a sentir o gosto da velocidade, só tinha mesmo voltado a conduzir quando os miúdos vítimas de uma virose ardiam em febre durante a noite e decidiu que tinha de os levar à urgência.

A viagem de comboio demorava cerca de 1 hora, depois, já perto de casa, Luísa apanhava o metro até perto de casa. Algumas vezes optava por vaguear a pé. Mas de inverno era perigoso andar pela cidade de noite e o frio não era um bom companheiro.

Já quase a chegar a casa, pegou no telemóvel e ligou a Nazaré. As duas irmãs faziam menos de um anos de diferença, eram muito diferentes, mas cúmplices desde sempre. 

- Atende a porcaria do telemóvel, sempre a mesma cabeça no ar... - Disse Luísa pensando alto.
- Já atendi! Que se passa? - Respondeu Nazaré do outro lado.
- Preciso de ajuda...
- Desde que não seja dinheiro!
- Estou a falar a sério, Nazaré, hoje aconteceu uma coisa grave, pensei ligar à Sónia, mas não a quis por a fazer serão numa 6ª feira...
- E trocas a tua Psicóloga de estimação por mim, deve ser mesmo grave, conta lá para eu me rir.

Luísa pensou em desligar a chamada, mas os acontecimentos daquela manhã estavam a queima-la por dentro e não queria chegar ao pé das crianças naquele estado. Respirou fundo e disse baixinho:
- Fui beijada!
Uma gargalhada do outro lado. 
- Aposto que não foi a primeira vez!
- Foi, foi a primeira vez desde aquela noite em que o António adormeceu, estou em pânico, não sei o que sinto, ajuda-me por favor... - A suplica de Luísa estava repleta de lágrimas.
- Onde estás, irmã, vou já buscar-te!
- E os meninos?
- Ficam bem com a avó, diz-me onde estás e liga à mãe a dizer que perdeste o comboio ou coisa parecida e que eu te vou buscar.
- Estou a chegar a casa. 
- Ok, da-me 15 minutos e estou aí!

Luísa mantivera o apartamento, recusara-se a voltar para a casa do pais, embora as crianças passassem lá muitos dias e muitas noites, Luísa com ou sem as crianças ia sempre dormir a casa.

Pouco depois de chegar a campainha tocou, Nazaré subiu as escadas até ao 3º andar a correr, sorriu e entrou.
- Até que enfim, rapariga, quem foi o herói?
- Não digas disparates, é um miúdo, tem 20 anos...
- Ui! voltamos à idade da loucura, conta-me tudo já me estou a coçar toda...

E assim, Luísa lá contou a Nazaré o que se passara e como aquele beijo a colocara confusa, o turbilhão de emoções que vieram à tona e como se sentia culpada por ter gostado do beijo de João e querer mais. 

Nazaré estava encantada, ouvia cada pormenor como uma criança ouve um conto de fadas, a vida de Luísa tinha sido sempre assim, repleta de histórias que ela adorava contar, até que um dia um camião desgovernado trancara o dom narrativo de Luísa e deitara fora a chave.

- E agora, que vais fazer?- Perguntou Nazaré encantada - Vais pelo menos satisfazer esse desejo que te está fazer estremecer, certo?
- Não sei, ele é um miúdo, eu tenho idade para ser mãe dele...
- E tens idade para viver, sair, e tal...
- Tu sabes que eu já não sou assim.
- Sei que estou a ver a minha irmã a voltar ao mundo dos vivos e não vou deixar-te desperdiçar esta oportunidade. Amanhã vamos às compras, ao cabeleireiro, arranjar as unhas... Vais voltar a ser tu!

Luísa olhou Nazaré nos olhos, queria tanto fazer o que ela dizia e tinha tanto medo... Sentia-se uma criança no primeiro dia de escola, um peixe fora de água...

- Tens alguma coisa que se coma nesta casa?
- Pizza no congelador, salsichas na despensa e bolachas...
- És uma desgraça, isso vai ter de mudar, os homens gostam de comer. Amanhã passo cá bem cedo, vamos à baixa...
- E as crianças? 
- Ou ficam com a avó, ou ficam com a avó... Anda, deixo-te lá, tens que jantar, eles a esta hora já devem estar prontos para dormir, assim não dizes que nem os viste.

Luísa assentiu, nem valia a pena contrariar Nazaré, era uma mulher determinada, independente, vivia sozinha, tinha uma carreira e uma vida nocturna activa, em lado nenhum revelava os seus 36 anos, e na realidade ninguém lhe dava mais de 30. Era a conselheira ideal de moda, era amiga, confidente, mas desligada dos sentimentos, limitava-se a viver cada dia como se fosse o último, dando sempre o seu melhor.

- Já não posso voltar atrás, pois não?
- Não, Luísa, não podes, já és uma menina crescida, amanhã vamos vestir-te como tal.
- Está bem, vamos lá às compras... Terapia de choque!
- É por aí. Até amanhã meu amor, chegamos, não me apetece entrar...
- Cheira-me que tens compromissos. Atrasei-te?
- Deixa lá, ele espera, uma mulher deve fazer um homem esperar. Dá um beijo ao meus sobrinhos lindos!
- Dou!

Luísa saiu e Nazaré arrancou em grande velocidade.

sábado, 13 de novembro de 2010

Capítulo II - As memórias do passado

O dia passou com as rotinas habituais, os mesmos cheiros e ruídos de sempre, quando o turno de Luísa terminou já não chovia, estava um ar gélido, era 6ª feira, o dia da semana que mais lhe custava regressar a casa e em que mais se avivavam as recordações...

Tinha sido numa 6ª feira à noite que o mundo de Luísa se partira aos seus pés, dia 29 de Fevereiro tinham ido a um jantar de amigos, ela, António e o bebé Carlos. Devido ao cansaço de uma semana de trabalho e à sonolência criada pelo vinho tinto alentejano ele pediu-lhe para levar o carro. A estrada estava molhada, apesar do céu novelado e do frio que se fazia sentir lá fora a visibilidade era boa e o caminho não era longo.

Pai e filho adormeceram assim que o Mercedes vermelho arrancou, ela adorava aquele carro e a velocidade, mas quando estava acompanhada tinha por hábito manter uma condução responsável, ligou o rádio, estava a tocar o Oceano Pacífico, sorriu e pensou, as coisas que este homem ouve, e mudou de emissora.

Do nada sentiu um impacto que não soube descrever, ficou tudo escuro, perdeu os sentidos, viu a sua mente a vaguear de mãos dadas com a de António e de repente a ligação foi quebrada, muitas luzes, alarido, um rosto em cima do seu: - Minha senhora, minha senhora, está a ouvir-me? Recorda-se do seu nome?
- Luísa, - respondeu - o que se passa? 
- O meu bebé, António?
- Onde é que eu estou?
- Calma, está tudo bem, houve um acidente, o seu bebé está bem, está a dormir no carro para não apanhar frio...
- E o meu marido?
- Está a ser tratado, não se preocupe, sente dores?
- Sinto-me desorientada, não me lembro de nada, estava a dar uma música foleira no rádio... e não me lembro de mais nada.
- Houve um acidente Luísa, um camião entrou em contra-mão e embateu de frente, deve ter-se despistado por causa da chuva, não o viu a chegar?
- Não me lembro, estava a dar uma música muito lamechas e eu estava a mudar de emissora, é o carro do meu marido, ele vai matar-me, ficou muito amassado?
- Não pense nisso agora, vamos para o hospital para ver se não tem nada partido...

Já no hospital trouxeram Carlos para junto da mãe, entrou uma médica jóvem, Marta, e sorriu. 
- Bem Luísa vamos ter de conversar, pelo que pudemos ver, o seu estado de saúde é bom, para um impacto daqueles até me admira de não ter nenhuma fractura, os hematomas do cinto se segurança vão desaparecer...
- E o António? Eu vinha acompanhada com o meu marido...
- Está estável, ainda nos cuidados intensivos, não sei dizer-lhe mais nada.

Luísa chorou, ele sentado ia no lugar dela, raramente a deixava conduzir, ele adorava aquele carro, e logo naquela noite em que lhe deu a chave sem qualquer relutância é que tinha que haver uma desgraça.

- Devia ser eu no lugar dele, Doutora, ele nunca me deixa conduzir.
- Nada acontece por acaso, Luisa, tenho algo a dizer-lhe...
- O que se passa?
- Apesar de estar com boa saúde verificamos que está grávida, sabia disso?
- Grávida? Eu, que disparate...
- Vamos ter de fazer alguns exames para avaliar o estado do bebé, não deve ter mais de 6 semanas, é provável que esteja bem, visto que ainda é muito pequenino, normalmente nesta fase ou há aborto espontâneo ou não acontece nada.
- Quando é que posso ver o meu marido?
- Assim que possível traremos notícias, agora tente descansar, tem o seu bebé consigo, a cadeira protegeu-o, o bombeiro que o retirou do carro disse que ele estava a dormir, não deu por nada, já o avaliamos, está de óptima saúde.

A médica saiu e Luísa ficou ali a olhar para o branco da enfermaria, para o seu tesouro ao seu lado e para os ponteiros do relógio que quase pareciam andar para trás.

Já de manhã chegou Sónia, uma Psicóloga, era jovem, sorridente, conversou um pouco com Luísa e ao fim de avaliar o seu estado emocional deu-lhe directamente a notícia. 
- Luísa, eu vim aqui para lhe dar a notícia que esperou a noite toda, não é a pior, mas para já não é muito animadora...
- O António... - gaguejou.
- Sim, o António, está em coma, neste momento está estável, mas o resultado dos exames ainda é inconclusivo, a confirmar-se o pior cenário é possível que não acorde.

Luísa chorou, como fora capaz de fazer uma coisa daquelas? Porque raios se pôs a mexer no rádio? Porque é que não viu o outro carro? Porque é que não se lembrava de nada?

Mais tarde chegou o resultado final, António não iria recuperar, ficaria em estado vegetativo até que a esposa assinasse a autorização para desligar a máquina. Luísa pensou estar a sonhar, não conseguiu assimilar tudo aquilo, não sabia o que fazer e entrou em estado de apatia.

A gravidez correu de forma normal, apesar de Luísa ter ficado de tal forma transtornada que foi transferida para a ala Psiquiátrica, o seu filho Carlos ficou entregue aos avós e António sobrevivia artificialmente.

A 13 de Outubro, nasceu Maria Antónia, nesse dia, ao ver a sua bebé Luísa saiu do estado de apatia em que vivera nos últimos meses, amamentou a sua filha chorando e sorrindo e pela primeira vez pediu para ver António. 
- Assim que se possa movimentar, disse a parteira, acabou de ser mãe.
- E ele pai, quero apresentar-lhe a filha...
- Marta e Sónia, as médicas que haviam acompanhado Luísa estavam presentes e aceitaram acompanha-la a ver o marido.

Naqueles meses Luísa planeara aquele momento, questionava-se agora se teria coragem para levar a cabo as suas intenções, rezava a Maria por lhe ter salvo a sua bebé, pedia desculpa a Deus pelas blasfémias pensadas ao receber a notícia, no seu rosto pálido era impossível ler qualquer emoção.

Chegadas à enfermaria, Luísa colocou a sua bebé na cama do pai e disse: 
- Apresento-te Maria Antónia, a nossa filha, nasceu hoje, dia de Maria, terá o teu nome e veio trazer-te paz.
- Doutoras, têm telemóvel com máquina fotográfica? Gostava de tirar uma fotografia ao meu marido com a nossa filha antes de desligar a máquina...

Marta e Sónia olharam-se sem saber o que dizer, foram ao bolso da bata e cada uma tirou uma foto à bebé que chorava junto ao pai.

- Está a chorar pela tristeza da despedida, eu não quis que ele morresse sem  conhecer a filha. Eu agora assino a autorização, podem desligar a máquina.

Ouviu-se ao longe o barulho do comboio, Luísa voltou à realidade, já tinham passado 2 anos desde o nascimento de Maria Antónia, quase 3 desde o acidente. Entrou e sentou-se, em breve estaria em casa, iria buscar os seus filhos e preparar-se para o fim-de-semana.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Capítulo I - O início da luxúria

O seus caminhos cruzaram-se num encontro casual, cumprimentaram-se, ele fumava um cigarro que ardia no ar gelado da manhã. Ela sentia ainda na boca o gosto do café amargo que bebera para se aquecer e recuperar de uma noite mal dormida.

- Posso acompanhar-te? - Perguntou ele tímidamente.
- Claro que sim! - Luisa sorriu  - Já sabes que eu vou mais devagar, se achas que és capaz de abrandar o passo, a mim sabe-me bem a companhia.

E assim foram, João e Luísa eram colegas de trabalho numa fábrica perdida no meio do nada, ambos tinham de percorrer um vasto caminho a pé até ao local de trabalho. Ela 35 anos, tinha estudado, mas pelos constrangimentos da vida tinha ficado por ali, ele com 20 anos tinha aprendido tudo o que sabia com ela, olhava-a com orgulho e admiração, também algum desejo, próprio da idade, ela ignorava-lhe o olhar, gostava da companhia, da boa conversa, do cheiro do cigarro que lhe trazia tantas recordações da sua juventude. Não eram sequer amigos, apenas colegas que apreciavam as mesmas coisas e gostavam de conversar.

- Que bom, - disse ela aborrecida procurando o guarda chuva na carteira - já está a chuver.
- O que é que tens contra a chuva? - perguntou ele - Estamos no inverno, com sorte ainda vai nevar.
- Contra a chuva não tenho nada. Quando tinha a tua idade nem sabia o que era um guarda-chuva, ou esqueceste-te que já passei dos 30?
- E o que é que vai acontecer, vais enferrujar? 
- Não tonto, vou constipar-me!
- Não vais nada, eu não deixo... - e João afastou o guarda-chuva.

A água escorria pelo rosto de ambos, ondulava-lhes os cabelos longos e pingava nos casacos de couro negro. Luísa começou a tremer de frio. João abraçou-a pensando que seria afastado. Já tinha tentado várias aproximações, mas  Luísa não era uma mulher fácil, a vida ensinara-a a desconfiar dos homens e a não gostar do seu toque. Mas para surpresa de ambos ela deixou-se abraçar, sorriu e continuou o seu caminho, devagar no seu corpo frágil escondido pelo longo casaco de couro. 

Na loucura de quem tem 20 anos João não pensou, abraçou-a mais forte e beijou-a. O mundo parou ali, numa fracção de segundos Luísa viu o passado na sua frente, João era demasiado jovem para ter passado, apenas admirava aquela mulher que num tom maternal lhe ensinara a trabalhar com as máquinas, simplificando, apoiando e fazendo-lhe crescer um desejo que o seu corpo desconhecia.

- Por favor não voltes a fazer isso! - Disse ela encharcada e a tremer de frio e de medo. - Como sabes eu sou casada...

Luísa havia sido casada, tinha dois filhos e continuava a usar a aliança e a referir-se ao marido como se ele ainda estivesse presente. A dor da perda tinha sido dissimulada pelo trabalho de cuidar da sua família e nunca tinha dito ser viúva, com frequência aceitava cumprimentos para o António, o seu falecido marido. Nem sequer tinha faltado ao serviço, pois o incidente tinha acontecido em férias, era um segredo dela e de um grupo muito restrito de amigos e familiares directos.

- Desculpa! - Disse João, voltando a abraça-la. - Eu já reparei que também olhas para mim, sei que para ti sou um miúdo e por isso posso comportar-me como tal. Mas tu correspondeste ao meu beijo, eu senti que gostaste... - Luísa corava no seu rosto pálido - Vou tentar não o voltar a fazer, se me quiseres sabes onde me encontrar...

João acelerou o passo e deixou-a sozinha à chuva. No meio das gotas que lhe molhavam o rosto, escorreram lágrimas, estas quentes e salgadas recordaram a Luísa que apesar do sucedido era uma mulher, estava viva e ainda era jovem. Os seus filhos estavam a tornar-se mais independentes e a cada dia que passava abatia-se sobre ela o frio da solidão. Olhou para o relógio, ainda dava tempo para outro café. Sentia o gosto a cigarro da boca de João, o seu corpo a suplicava por mais, já não tremia de frio nem medo, mas sim de desejo. 

Parou no café, secou o rosto e o cabelo da melhor forma que pode, tomou o café de um golo só, pagou e saiu. - Não sejas louca, Luísa, é apenas um miúdo! - Abriu o guarda-chuva e seguiu o seu caminho.