O seus caminhos cruzaram-se num encontro casual, cumprimentaram-se, ele fumava um cigarro que ardia no ar gelado da manhã. Ela sentia ainda na boca o gosto do café amargo que bebera para se aquecer e recuperar de uma noite mal dormida.
- Posso acompanhar-te? - Perguntou ele tímidamente.
- Claro que sim! - Luisa sorriu - Já sabes que eu vou mais devagar, se achas que és capaz de abrandar o passo, a mim sabe-me bem a companhia.
E assim foram, João e Luísa eram colegas de trabalho numa fábrica perdida no meio do nada, ambos tinham de percorrer um vasto caminho a pé até ao local de trabalho. Ela 35 anos, tinha estudado, mas pelos constrangimentos da vida tinha ficado por ali, ele com 20 anos tinha aprendido tudo o que sabia com ela, olhava-a com orgulho e admiração, também algum desejo, próprio da idade, ela ignorava-lhe o olhar, gostava da companhia, da boa conversa, do cheiro do cigarro que lhe trazia tantas recordações da sua juventude. Não eram sequer amigos, apenas colegas que apreciavam as mesmas coisas e gostavam de conversar.
- Que bom, - disse ela aborrecida procurando o guarda chuva na carteira - já está a chuver.
- O que é que tens contra a chuva? - perguntou ele - Estamos no inverno, com sorte ainda vai nevar.
- Contra a chuva não tenho nada. Quando tinha a tua idade nem sabia o que era um guarda-chuva, ou esqueceste-te que já passei dos 30?
- E o que é que vai acontecer, vais enferrujar?
- Não tonto, vou constipar-me!
- Não vais nada, eu não deixo... - e João afastou o guarda-chuva.
A água escorria pelo rosto de ambos, ondulava-lhes os cabelos longos e pingava nos casacos de couro negro. Luísa começou a tremer de frio. João abraçou-a pensando que seria afastado. Já tinha tentado várias aproximações, mas Luísa não era uma mulher fácil, a vida ensinara-a a desconfiar dos homens e a não gostar do seu toque. Mas para surpresa de ambos ela deixou-se abraçar, sorriu e continuou o seu caminho, devagar no seu corpo frágil escondido pelo longo casaco de couro.
Na loucura de quem tem 20 anos João não pensou, abraçou-a mais forte e beijou-a. O mundo parou ali, numa fracção de segundos Luísa viu o passado na sua frente, João era demasiado jovem para ter passado, apenas admirava aquela mulher que num tom maternal lhe ensinara a trabalhar com as máquinas, simplificando, apoiando e fazendo-lhe crescer um desejo que o seu corpo desconhecia.
- Por favor não voltes a fazer isso! - Disse ela encharcada e a tremer de frio e de medo. - Como sabes eu sou casada...
Luísa havia sido casada, tinha dois filhos e continuava a usar a aliança e a referir-se ao marido como se ele ainda estivesse presente. A dor da perda tinha sido dissimulada pelo trabalho de cuidar da sua família e nunca tinha dito ser viúva, com frequência aceitava cumprimentos para o António, o seu falecido marido. Nem sequer tinha faltado ao serviço, pois o incidente tinha acontecido em férias, era um segredo dela e de um grupo muito restrito de amigos e familiares directos.
- Desculpa! - Disse João, voltando a abraça-la. - Eu já reparei que também olhas para mim, sei que para ti sou um miúdo e por isso posso comportar-me como tal. Mas tu correspondeste ao meu beijo, eu senti que gostaste... - Luísa corava no seu rosto pálido - Vou tentar não o voltar a fazer, se me quiseres sabes onde me encontrar...
João acelerou o passo e deixou-a sozinha à chuva. No meio das gotas que lhe molhavam o rosto, escorreram lágrimas, estas quentes e salgadas recordaram a Luísa que apesar do sucedido era uma mulher, estava viva e ainda era jovem. Os seus filhos estavam a tornar-se mais independentes e a cada dia que passava abatia-se sobre ela o frio da solidão. Olhou para o relógio, ainda dava tempo para outro café. Sentia o gosto a cigarro da boca de João, o seu corpo a suplicava por mais, já não tremia de frio nem medo, mas sim de desejo.
Parou no café, secou o rosto e o cabelo da melhor forma que pode, tomou o café de um golo só, pagou e saiu. - Não sejas louca, Luísa, é apenas um miúdo! - Abriu o guarda-chuva e seguiu o seu caminho.
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