A viagem de comboio correu calma como de costume, Luísa mantinha o seu carro, mas desde o acidente que optara por não conduzir, o seu carro era usado esporadicamente para levar as crianças ao pediatra, ou ao jardim escola quando estava a chover, também quando precisava de ir às compras, mas sempre dentro da cidade, muito atenta e apenas por necessidade.
Luísa não voltou a viajar, a sentir o gosto da velocidade, só tinha mesmo voltado a conduzir quando os miúdos vítimas de uma virose ardiam em febre durante a noite e decidiu que tinha de os levar à urgência.
A viagem de comboio demorava cerca de 1 hora, depois, já perto de casa, Luísa apanhava o metro até perto de casa. Algumas vezes optava por vaguear a pé. Mas de inverno era perigoso andar pela cidade de noite e o frio não era um bom companheiro.
Já quase a chegar a casa, pegou no telemóvel e ligou a Nazaré. As duas irmãs faziam menos de um anos de diferença, eram muito diferentes, mas cúmplices desde sempre.
- Atende a porcaria do telemóvel, sempre a mesma cabeça no ar... - Disse Luísa pensando alto.
- Já atendi! Que se passa? - Respondeu Nazaré do outro lado.
- Preciso de ajuda...
- Desde que não seja dinheiro!
- Estou a falar a sério, Nazaré, hoje aconteceu uma coisa grave, pensei ligar à Sónia, mas não a quis por a fazer serão numa 6ª feira...
- E trocas a tua Psicóloga de estimação por mim, deve ser mesmo grave, conta lá para eu me rir.
Luísa pensou em desligar a chamada, mas os acontecimentos daquela manhã estavam a queima-la por dentro e não queria chegar ao pé das crianças naquele estado. Respirou fundo e disse baixinho:
- Fui beijada!
Uma gargalhada do outro lado.
- Aposto que não foi a primeira vez!
- Foi, foi a primeira vez desde aquela noite em que o António adormeceu, estou em pânico, não sei o que sinto, ajuda-me por favor... - A suplica de Luísa estava repleta de lágrimas.
- Onde estás, irmã, vou já buscar-te!
- E os meninos?
- Ficam bem com a avó, diz-me onde estás e liga à mãe a dizer que perdeste o comboio ou coisa parecida e que eu te vou buscar.
- Estou a chegar a casa.
- Ok, da-me 15 minutos e estou aí!
Luísa mantivera o apartamento, recusara-se a voltar para a casa do pais, embora as crianças passassem lá muitos dias e muitas noites, Luísa com ou sem as crianças ia sempre dormir a casa.
Pouco depois de chegar a campainha tocou, Nazaré subiu as escadas até ao 3º andar a correr, sorriu e entrou.
- Até que enfim, rapariga, quem foi o herói?
- Não digas disparates, é um miúdo, tem 20 anos...
- Ui! voltamos à idade da loucura, conta-me tudo já me estou a coçar toda...
E assim, Luísa lá contou a Nazaré o que se passara e como aquele beijo a colocara confusa, o turbilhão de emoções que vieram à tona e como se sentia culpada por ter gostado do beijo de João e querer mais.
Nazaré estava encantada, ouvia cada pormenor como uma criança ouve um conto de fadas, a vida de Luísa tinha sido sempre assim, repleta de histórias que ela adorava contar, até que um dia um camião desgovernado trancara o dom narrativo de Luísa e deitara fora a chave.
- E agora, que vais fazer?- Perguntou Nazaré encantada - Vais pelo menos satisfazer esse desejo que te está fazer estremecer, certo?
- Não sei, ele é um miúdo, eu tenho idade para ser mãe dele...
- E tens idade para viver, sair, e tal...
- Tu sabes que eu já não sou assim.
- Sei que estou a ver a minha irmã a voltar ao mundo dos vivos e não vou deixar-te desperdiçar esta oportunidade. Amanhã vamos às compras, ao cabeleireiro, arranjar as unhas... Vais voltar a ser tu!
Luísa olhou Nazaré nos olhos, queria tanto fazer o que ela dizia e tinha tanto medo... Sentia-se uma criança no primeiro dia de escola, um peixe fora de água...
- Tens alguma coisa que se coma nesta casa?
- Pizza no congelador, salsichas na despensa e bolachas...
- És uma desgraça, isso vai ter de mudar, os homens gostam de comer. Amanhã passo cá bem cedo, vamos à baixa...
- E as crianças?
- Ou ficam com a avó, ou ficam com a avó... Anda, deixo-te lá, tens que jantar, eles a esta hora já devem estar prontos para dormir, assim não dizes que nem os viste.
Luísa assentiu, nem valia a pena contrariar Nazaré, era uma mulher determinada, independente, vivia sozinha, tinha uma carreira e uma vida nocturna activa, em lado nenhum revelava os seus 36 anos, e na realidade ninguém lhe dava mais de 30. Era a conselheira ideal de moda, era amiga, confidente, mas desligada dos sentimentos, limitava-se a viver cada dia como se fosse o último, dando sempre o seu melhor.
- Já não posso voltar atrás, pois não?
- Não, Luísa, não podes, já és uma menina crescida, amanhã vamos vestir-te como tal.
- Está bem, vamos lá às compras... Terapia de choque!
- É por aí. Até amanhã meu amor, chegamos, não me apetece entrar...
- Cheira-me que tens compromissos. Atrasei-te?
- Deixa lá, ele espera, uma mulher deve fazer um homem esperar. Dá um beijo ao meus sobrinhos lindos!
- Dou!
Luísa saiu e Nazaré arrancou em grande velocidade.
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