A campainha tocou, Nazaré chegou cedo, como prometido, dava para perceber pelos restos de maquilhagem que ainda não tinha ido à cama, e pelo seu ar enfadado que a noite não tinha corrido como planeado.
- Bom dia mana, queres café?
- Por favor! Posso fumar?
- Podes, mas sabes que isso um dia ainda vai matar-te...
- É como tu dizes maninha linda: "o que não nos mata torna-nos mais fortes!"
- A noite não te correu bem?
- Começou bem, mas acabou mal, homens...
- Devias escolher um, casar, ter filhos.
- Sim, sim, ser uma menina bem comportada, o orgulho do papá e da mamã... Já vi esse filem, a protagonista acaba só e infeliz.
- Eu não estou só!
- Não estava a falar de ti, estava a falar no geral. Tu ainda vais a tempo de acordar para a vida.
- Toma o café, dá-me um cigarro.
- É porque dou, se estás a pensar em meter-te em sarilhos eu não quero ser responsável, só te quero mudar esse look de viúva para a mulher linda que és.
- Tenho medo Nazaré!
- Eu sei. Um passo de cada vez, deixa-me aliviar a ressaca e já vamos tratar do teu guarda-roupa... e do cabelo, meu Deus, já não vê umas tesouras há séculos!
Saíram por volta das 9 horas, para aproveitar o tempo, Nazaré decidiu começar pelo corte de cabelo. Luísa tinha um cabelo castanho, fino e encaracolado, passava do meio das costas, começava já a ter muitos cabelos brancos e estava a necessitar de um corte urgente. Nazaré tinha pensado em madeixas, mas conhecia bem a irmã e pediu à cabeleireira um corte prático, pelos ombros, incerto para acentuar os caracóis e uma cor com reflexos acaju escuro. Na manicura optou por uma tinta de gel, muito mais durável, num tom pastel claro. Em uma hora Luísa já parecia outra pessoa.
- E então, que tal te sentes?
- Estranha!
- Pois, começamos pelo fim, mas os shoppings só abrem às 10 horas e assim aproveitamos uma hora...
- E pintaste-me o cabelo, vais obrigar-me a fazer manutenção...
- É tom sobre tom maninha, não deixa raiz, dura cerca de um mês, depois fazes o que te apetecer.
- Ok, está bonito, era a cor que eu costumava usar.
- Eu sei disso, como te disse vou recuperar-te!
Seguiram-se horas de compras, jeans, t-shirts, camisolas, casacos, botas, sapatos, carteira, até lingerie. Luísa tentou fugir ao preto, mas a paleta não era muito variada, andava tudo à volta dos cinzentos, roxos, castanhos e azuis.
- Nazaré, já chega, são três da tarde, estou cansada.
- E eu esganadinha de fome. Começo a entender como é que manténs esse corpinho, não comes nada...
- Então, vamos comer.
- Francesinha?
- Seja, meia para mim, sem molho e sem batatas...
- Tu dou cabo de mim. Vamos lá!
A mala do carro já começava a ficar cheia, foram comer a francesinha no centro comercial onde se encontravam para poupar tempo.
- Parece que já tenho tudo o que necessito, queres ir descansar depois do almoço?
- Eu durmo quando morrer, vamos ao supermercado.
- Mais compras?
- Claro, Luísa, não tens nada de comer em casa...
- Prometo que te deixo em casa ao anoitecer.
- E os meninos? Ainda não os vi hoje.
- Vês logo. Compramos-lhes uns brinquedos.
- Tens de ir ver os pais, eles repararam que não entraste, sabes que a idade não perdoa...
- Vamos fazer assim: eu prometo-te que hoje vou jantar a casa dos pais e tu comes o que tens no prato e deixas o resto da tarde por minha conta.
- Eu pensei que já estava por tua conta desde que saí de casa...
- E estás, se aceitares continuar eu faço o sacrifício de aturar os velhos e assim vejo os meus sobrinhos lindos.
- Há alguma coisa que tu queiras e que não consigas ter?
- Há várias, mas hoje é o teu dia, falamos nisso amanhã ou depois...
E assim Luísa comeu numa refeição mais do que era habitual num dia inteiro e prosseguiram com as compras, como prometido ao anoitecer Nazaré estava a estacionar o carro à porta de Luísa. Levaram os sacos para cima, pegaram nas prendas das crianças e dirigiram-se a casa dos pais.
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