Luísa entrou na casa dos pais, era uma vivenda antiga de dois pisos, tinha sido restaurada após o casamento de Luísa e o seu antigo quarto tinha passado a ser o quanto das crianças. Carlos e Maria Antónia brincavam, dormiam e cresciam naquele quarto de 20 metros. Tinham um beliche num canto e um enorme tapete de diversões.
- Os miúdos? - perguntou ao entrar na sala.
- Já estão no quarto, tomaram banho e não tarda nada vão dormir, chegaste tão tarde... - Disse a mãe com um ar apreensivo.
- Perdi o comboio, a Nazaré foi buscar-me e apanhamos trânsito.
- E onde é que ela está, já nem entra para ver o pais?
- Não sejas assim, ela tinha um compromisso e atrasou-se por minha causa, se entrasse nunca mais conseguia chegar dentro do aceitável...
- A tua irmã tem sempre desculpa, está sempre atrasada. - Benedita começara a conversa do costume. Apesar de fazer de tudo para ajudar as filhas, e de nunca lhes ter faltado com nada, não entendia a sua emancipação e a permanente necessidade de liberdade de Nazaré.
- Ela tem uma carreira de sucesso, é uma jornalista muito conceituada, devias ter orgulho nela, não critica-la...
- Eu não estou a criticar, - disse a mãe amargamente, - apenas estou a dizer que ela podia ter entrado...
- Está bem. Vou dar um beijo de boa noite os miúdos, podem ficar cá a dormir?
- E não ficam sempre?
- Não. Não ficam! Ficam muitas vezes, é um facto, mas sempre que posso passo tempo com eles... - Luísa de facto, sentia que estava ausente a maior parte do tempo, até sentia alguma culpa, mas por vezes tinha dificuldade em ligar-se à terra e sabia que as crianças estavam bem com os avós.
Luísa entrou devagarinho no quarto, as crianças saltavam alegremente, a primeira a ver foi Maria Antónia. - Mamã! - E ambas as crianças correram para os braços da mãe.
Era nestes momentos que o coração de Luísa tinha alguma paz, quando era atirada ao chão pelos seus filhos que corriam em direcção a ela e a abraçavam, sentia-se viva pela vida deles, e que vida, duas crianças imparáveis, constantemente a correr e saltar, junto deles só se ouviam gritos e gargalhadas.
- Vá meninos, são horas de ir para a cama, eu aconchego-vos a roupa.
- Leitinho mamã... - Disse Maria Antónia numa súplica.
- Está bem, vai lá para a cama que eu vou buscar. Também queres Carlos?
- Não mamã, traz só para a bebé. - Disse Carlos deitando a língua de fora à irmã. E claro, lá se pegaram outra vez.
Luísa foi buscar o leite, entregou a Maria Antónia e aconchegou as duas crianças na cama. Desceu e foi ter com a mãe.
- Amanhã vou com a Nazaré às compras.
- Com a Nazaré, para os meninos?
- Também, e para mim,já não compro nada há mais de 3 anos...
- Fazes bem, mas com a tua irmã a ajudar, até tenho medo!
- Não tenhas, eu ponho-lhe travão. Aproveito e vejo algumas coisas para os meninos.
- Precisas de dinheiro?
- Não, que disparate, obrigada.
- Vou descansar, até amanhã.
- E não jantas? Qualquer dia desapareces!
- Eu como qualquer coisa em casa, vai dormir, já é tarde.
Luísa pegou no casaco e saiu, o apartamento era quase ao lado, precisava de pensar no que ia comprar e digerir as emoções. À sua espera tinha o seu gato Perdido, chamara-lhe assim, porque não acreditava que alguém tivesse sido capaz de abandonar um ser tão meigo, encontrara-o a vaguear na rua e levara-o para casa na esperança de que o dono aparecesse, já o tinha há 1 ano e já não tinha intenção de o devolver.
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