O dia passou com as rotinas habituais, os mesmos cheiros e ruídos de sempre, quando o turno de Luísa terminou já não chovia, estava um ar gélido, era 6ª feira, o dia da semana que mais lhe custava regressar a casa e em que mais se avivavam as recordações...
Tinha sido numa 6ª feira à noite que o mundo de Luísa se partira aos seus pés, dia 29 de Fevereiro tinham ido a um jantar de amigos, ela, António e o bebé Carlos. Devido ao cansaço de uma semana de trabalho e à sonolência criada pelo vinho tinto alentejano ele pediu-lhe para levar o carro. A estrada estava molhada, apesar do céu novelado e do frio que se fazia sentir lá fora a visibilidade era boa e o caminho não era longo.
Pai e filho adormeceram assim que o Mercedes vermelho arrancou, ela adorava aquele carro e a velocidade, mas quando estava acompanhada tinha por hábito manter uma condução responsável, ligou o rádio, estava a tocar o Oceano Pacífico, sorriu e pensou, as coisas que este homem ouve, e mudou de emissora.
Do nada sentiu um impacto que não soube descrever, ficou tudo escuro, perdeu os sentidos, viu a sua mente a vaguear de mãos dadas com a de António e de repente a ligação foi quebrada, muitas luzes, alarido, um rosto em cima do seu: - Minha senhora, minha senhora, está a ouvir-me? Recorda-se do seu nome?
- Luísa, - respondeu - o que se passa?
- O meu bebé, António?
- Onde é que eu estou?
- Calma, está tudo bem, houve um acidente, o seu bebé está bem, está a dormir no carro para não apanhar frio...
- E o meu marido?
- Está a ser tratado, não se preocupe, sente dores?
- Sinto-me desorientada, não me lembro de nada, estava a dar uma música foleira no rádio... e não me lembro de mais nada.
- Houve um acidente Luísa, um camião entrou em contra-mão e embateu de frente, deve ter-se despistado por causa da chuva, não o viu a chegar?
- Não me lembro, estava a dar uma música muito lamechas e eu estava a mudar de emissora, é o carro do meu marido, ele vai matar-me, ficou muito amassado?
- Não pense nisso agora, vamos para o hospital para ver se não tem nada partido...
Já no hospital trouxeram Carlos para junto da mãe, entrou uma médica jóvem, Marta, e sorriu.
- Bem Luísa vamos ter de conversar, pelo que pudemos ver, o seu estado de saúde é bom, para um impacto daqueles até me admira de não ter nenhuma fractura, os hematomas do cinto se segurança vão desaparecer...
- E o António? Eu vinha acompanhada com o meu marido...
- Está estável, ainda nos cuidados intensivos, não sei dizer-lhe mais nada.
Luísa chorou, ele sentado ia no lugar dela, raramente a deixava conduzir, ele adorava aquele carro, e logo naquela noite em que lhe deu a chave sem qualquer relutância é que tinha que haver uma desgraça.
- Devia ser eu no lugar dele, Doutora, ele nunca me deixa conduzir.
- Nada acontece por acaso, Luisa, tenho algo a dizer-lhe...
- O que se passa?
- Apesar de estar com boa saúde verificamos que está grávida, sabia disso?
- Grávida? Eu, que disparate...
- Vamos ter de fazer alguns exames para avaliar o estado do bebé, não deve ter mais de 6 semanas, é provável que esteja bem, visto que ainda é muito pequenino, normalmente nesta fase ou há aborto espontâneo ou não acontece nada.
- Quando é que posso ver o meu marido?
- Assim que possível traremos notícias, agora tente descansar, tem o seu bebé consigo, a cadeira protegeu-o, o bombeiro que o retirou do carro disse que ele estava a dormir, não deu por nada, já o avaliamos, está de óptima saúde.
A médica saiu e Luísa ficou ali a olhar para o branco da enfermaria, para o seu tesouro ao seu lado e para os ponteiros do relógio que quase pareciam andar para trás.
Já de manhã chegou Sónia, uma Psicóloga, era jovem, sorridente, conversou um pouco com Luísa e ao fim de avaliar o seu estado emocional deu-lhe directamente a notícia.
- Luísa, eu vim aqui para lhe dar a notícia que esperou a noite toda, não é a pior, mas para já não é muito animadora...
- O António... - gaguejou.
- Sim, o António, está em coma, neste momento está estável, mas o resultado dos exames ainda é inconclusivo, a confirmar-se o pior cenário é possível que não acorde.
Luísa chorou, como fora capaz de fazer uma coisa daquelas? Porque raios se pôs a mexer no rádio? Porque é que não viu o outro carro? Porque é que não se lembrava de nada?
Mais tarde chegou o resultado final, António não iria recuperar, ficaria em estado vegetativo até que a esposa assinasse a autorização para desligar a máquina. Luísa pensou estar a sonhar, não conseguiu assimilar tudo aquilo, não sabia o que fazer e entrou em estado de apatia.
A gravidez correu de forma normal, apesar de Luísa ter ficado de tal forma transtornada que foi transferida para a ala Psiquiátrica, o seu filho Carlos ficou entregue aos avós e António sobrevivia artificialmente.
A 13 de Outubro, nasceu Maria Antónia, nesse dia, ao ver a sua bebé Luísa saiu do estado de apatia em que vivera nos últimos meses, amamentou a sua filha chorando e sorrindo e pela primeira vez pediu para ver António.
- Assim que se possa movimentar, disse a parteira, acabou de ser mãe.
- E ele pai, quero apresentar-lhe a filha...
- Marta e Sónia, as médicas que haviam acompanhado Luísa estavam presentes e aceitaram acompanha-la a ver o marido.
Naqueles meses Luísa planeara aquele momento, questionava-se agora se teria coragem para levar a cabo as suas intenções, rezava a Maria por lhe ter salvo a sua bebé, pedia desculpa a Deus pelas blasfémias pensadas ao receber a notícia, no seu rosto pálido era impossível ler qualquer emoção.
Chegadas à enfermaria, Luísa colocou a sua bebé na cama do pai e disse:
- Apresento-te Maria Antónia, a nossa filha, nasceu hoje, dia de Maria, terá o teu nome e veio trazer-te paz.
- Doutoras, têm telemóvel com máquina fotográfica? Gostava de tirar uma fotografia ao meu marido com a nossa filha antes de desligar a máquina...
Marta e Sónia olharam-se sem saber o que dizer, foram ao bolso da bata e cada uma tirou uma foto à bebé que chorava junto ao pai.
- Está a chorar pela tristeza da despedida, eu não quis que ele morresse sem conhecer a filha. Eu agora assino a autorização, podem desligar a máquina.
Ouviu-se ao longe o barulho do comboio, Luísa voltou à realidade, já tinham passado 2 anos desde o nascimento de Maria Antónia, quase 3 desde o acidente. Entrou e sentou-se, em breve estaria em casa, iria buscar os seus filhos e preparar-se para o fim-de-semana.
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